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A Liturgia do Café

  • Foto do escritor: Mariane Level
    Mariane Level
  • 5 de mai.
  • 2 min de leitura

Tem uma coisa que ninguém fala abertamente, mas todo mundo pratica com uma devoção quase religiosa, que é o ritual do café da manhã. Não estou falando de café da manhã como refeição, não. Estou falando do momento específico em que você segura a xícara com as duas mãos, respira fundo, e decide, em silêncio, que vai encarar o dia.



É coragem líquida. É isso que é.


Tem gente que bebe com açúcar, adoçando não só o café mas a própria expectativa do que vem pela frente. Tem quem beba puro, amargo mesmo, como quem avisa pro mundo logo cedo que não vai ter moleza. E tem o meu tipo, que fica no meio do caminho, uma colherinha de açúcar, um pedacinho de compromisso com a leveza, sem abrir mão do fundo sério que a vida exige.


Nos dias em que o café parece pesado demais, aparece o chá de capim-santo. Aquele cheiro de quintal, de calma, de coisa que a avó fazia sem receita e sem pressa. Às vezes o corpo pede pausa antes mesmo de começar, e tudo bem reconhecer isso.


O que me impressiona mesmo é o peso que depositamos nesse momento tão pequeno. Como se a xícara guardasse não só a bebida quente, mas toda a promessa do que ainda pode acontecer. O dia ainda não bagunçou nada, o chefe ainda não mandou mensagem, o trânsito ainda não existiu. Por alguns minutos, só você e o vapor subindo devagar.


Mas o café também divide as pessoas de um jeito curioso. Tem quem não consiga existir sem ele, como se o dia fosse uma página em branco que só começa depois da primeira xícara. Tem quem evite por conta dos dentes, sacrificando o ritual pelo sorriso, o que eu respeito mas não consigo imaginar fazer. E tem quem simplesmente não aguente a cafeína, o coração acelerado, a cabeça latejando, o sono que vai embora sem permissão e demora pra voltar.


Esse último caso eu observo de longe com uma mistura de pena e admiração. Pena porque perdem o ritual. Admiração porque dormem como crianças mesmo assim, enquanto eu, que bebo café e juro que durmo igual anjinho, na verdade fico na dúvida se é o café ou só a consciência pesada mesmo.


Mas o ponto é esse. Seja qual for a sua versão do ritual, com açúcar, sem, com chá no lugar, com susto no coração ou com sono atrasado, tem algo de bonito em como a gente escolhe começar. Tem intenção nisso. Tem cuidado.


Então beba seu café, ou seu chá, ou sua água com limão pra quem já é nessa fase. E que o dia seja pelo menos tão bom quanto aquele primeiro gole prometeu.

 
 
 

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