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O Misterioso Sumiço dos Guarda-Chuvas
Juro que todo ano é a mesma história. Chega aquela primeira garoa fina de abril, aquele vento que corta o rosto e traz cheiro de terra molhada, e eu me pego abrindo o guarda-roupas com a certeza absoluta de que tenho um guarda-chuva. Tenho certeza. Lembro de ter comprado. Lembro até da cor. Mas ele não está lá.
Onde está?
Não está em lugar nenhum, na verdade. Não está no carro, não está no guarda-roupa, não está naquele cantinho da entrada onde a gente joga as coisas que "vai guardar depois". Sumiu. Evaporou. Virou neblina, talvez, como vingança poética.
E o pior não é o sumiço em si, é que eu nunca vi acontecer. Nunca peguei o guarda-chuva saindo pela porta. Nunca o despedi. Ele simplesmente decide, num determinado momento do ano, que a relação chegou ao fim e vai embora sem deixar bilhete.

O céu sempre sabe.
Já parei para pensar nas hipóteses, porque minha cabeça não aceita o inexplicável sem antes tentar explicar. Será que esqueci num carro de aplicativo? Pode ser. Num restaurante? Provável. Emprestei para alguém que nunca devolveu? Ah, essa é clássica. Mas não me lembro de nada disso. A memória não registrou. O guarda-chuva foi embora e levou as provas junto.
Tenho uma teoria, inclusive. Acho que existe uma dimensão paralela, discreta e silenciosa, habitada exclusivamente por guarda-chuvas desaparecidos, meias sem par, canetas que pararam de funcionar no meio de uma frase importante e tampinhas de garrafa que rolaram para baixo do sofá e nunca mais foram encontradas. Eles estão lá, todos juntos, provavelmente felizes, livres do peso de serem necessários só quando o céu resolve desabar.
E todo ano, sem falta, eu compro outro. Às vezes compro dois, como estratégia de guerra, achando que um vai sobreviver. Não sobrevive. Em algum momento do outono seguinte, os dois terão partido para o mesmo destino misterioso, e eu estarei de volta à loja escolhendo entre o azul-marinho e o estampado, prometendo para mim mesma que dessa vez vai ser diferente.
Não vai.
Mas não é só o guarda-chuva, convenhamos. Existe uma lista inteira de coisas que a gente recompra todo ano como se fosse a primeira vez, com a mesma esperança renovada de alguém que acredita em milagres. Protetor solar que some antes do verão acabar. Pilhas, sempre pilhas. Aquele tipo específico de caneta que a gente adora e que, assim que acaba, a gente jura que vai comprar de caixa inteira e nunca compra. Fio dental, porque a gente começa o ano comprometido com a saúde bucal e em algum ponto de março já nem sabe onde está o fio. Caderninho de anotações, porque todo ano a gente acha que vai ser o tipo de pessoa que anota as coisas à mão.
A vida é um ciclo, dizem os filósofos. Concordo plenamente. É um ciclo de perdas e reposições, de esquecimentos e recomeços, de gavetas cheias de coisas inúteis e guarda-chuvas que nunca estão lá quando a chuva chega.
E sabe o que é engraçado? No dia em que você não tem guarda-chuva nenhum, chove pra valer. O céu sabe. O céu sempre sabe.





