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O Lobo que Eu Não Alimentei

  • Foto do escritor: Mariane Level
    Mariane Level
  • 1 de abr.
  • 2 min de leitura

Tem uma coisa no ser humano que me intriga profundamente: a capacidade de transformar uma notificação no celular em um ringue de boxe mental.



A mensagem chega. Um nome aparece na tela. E antes mesmo de abrir, já começa o espetáculo interno, aquele divertidamente particular, onde o personagem principal se chama Raiva, usa casaco vermelho, e não pede licença pra entrar.


Vou xingar. Vou responder com frieza cirúrgica. Vou escrever um textão de três parágrafos e meio que vai mudar a visão de mundo dessa pessoa. Ou melhor: vou bloquear. Bloquear e arquivar. E deletar o número. E queimar o celular.


Conheço esse roteiro de cor. Já o protagonizei com maestria, inclusive com cenas extras que não estavam no script original. Já tratei gente mal. Já bloqueei. Já mandei mensagem e depois percebi, horas depois, com a cabeça já mais fria, que eu tinha sido o lobo da história, não a vítima dele.


Mas ontem aconteceu uma coisa estranha.


A mensagem chegou. Eu reconheci o nome. O ringue mental montou o cenário em menos de dois segundos, luvas, árbitro, tudo. E então, por algum motivo que eu ainda não sei explicar direito, eu apenas olhei.

 

E apaguei.

 

Sem responder. Sem elaborar. Sem alimentar o fogo com a minha própria energia. Apaguei e coloquei o celular na mesa.

E fiquei sorrindo sozinha.

Não foi indiferença, quero deixar isso claro, porque tem uma diferença enorme entre não se importar e escolher não desperdiçar. Eu me importei o suficiente pra notar. Só não me importei o suficiente pra continuar.


Existe uma história indígena muito conhecida sobre dois lobos que vivem dentro de cada pessoa: um é raiva, medo, ressentimento; o outro é paz, compaixão, equilíbrio. Alguém pergunta ao ancião qual deles vence. A resposta é simples: aquele que você alimenta.


Eu não alimentei o lobo ontem. E ele ficou lá, rosnando um pouquinho, mas foi embora.

Me senti vencedora de um jeito que nenhuma resposta furiosa jamais teria me dado.

Às vezes a vitória mais bonita é a que ninguém vê acontecer, é a que a gente sente, quietinha, com um sorriso besta no rosto, sozinha numa tarde qualquer.


E você? Já conseguiu não alimentar o lobo? Me conta aqui nos comentários, prometo que esse é um espaço onde a raiva também pode sentar, tomar um café, e ir embora em paz.

 
 
 

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